É fim de tarde em Maracanaú (CE), município da região metropolitana de Fortaleza. Bernardo Bonjean, 40, acelera a “Bacora”, apelido da Honda 125 e fiel escudeira do agente de crédito Pedro Rodrigues, 26, para chegar à cidade vizinha de Pacatuba (CE).

Entre 2003 e 2012, o piloto costumava cruzar o agreste nordestino a bordo de uma possante KTM, quando disputava na categoria de motos de 450 cilindradas em sete edições do Rally dos Sertões.

Cinco anos depois da última competição, o amante de motovelocidade retornou à região pilotando a Avante, negócio social que oferece microcréditoe serviços bancários humanizados para a base da pirâmide.
“Antes eu passava por aqui em alta velocidade, competindo. Hoje, entro na casa do meu agente de crédito e do nosso cliente”, compara.

O administrador de empresas carioca que fez carreira de sucesso no mercado financeiro leva na garupa da moto desta vez um dos 150 agentes da fintech fundada por ele em 2012 e que já realizou mais de 50 mil operações de microcrédito em todo o país.

Além de mostrar a realidade em campo para o patrão, o cearense se ofereceu para hospedar Bonjean, depois de ler um post no Facebook, no qual o mandachuva se dizia disposto a fazer uma imersão no Brasil profundo.

“Cada vez que visito um microempreendedor é como se tomasse um tapa na cara. Eles são os verdadeiros empreendedores do Brasil”, relata Bonjean. “Eu tive o mundo aos meus pés, estudei nas melhores universidades, trabalhei em lugares incríveis, mas aprendo muito mais com eles.”

E assim ele foi parar no Jereissati 2, um bairro operário, em janeiro deste ano. Por uma semana, o dono da Avante dividiu dois quartos, sala, cozinha e banheiro com os cinco outros membros da família do agente Pedro.

A hospitalidade foi retribuída. Seis meses depois, foi a vez de o funcionário passar uma semana na residência dos Bonjean no sofisticado Jardim América, em São Paulo. “Eu brincava com os filhos do Bernardo, fomos jogar golfe juntos no clube dele e assistimos a um espetáculo no Theatro Municipal”, relata o funcionário.

“Foi uma experiência rica para toda a família. É um modo de mostrar aos nossos filhos que somos todos iguais e podemos aprender uns com os outros, independentemente de classe social, origem”, diz Graziela Pinto, 40, casada com Bonjean há dez anos. Da relação nasceram Joaquim, 6, e Caetano.

MERCADO FINANCEIRO

Espírito de aventura, aliado à ousadia e ao desejo de ter um propósito na vida, fizeram Bonjean trocar grifes do mercado financeiro, como o banco Pactual e a XP Investimentos, por um negócio de impacto social.

“A mesa de operações é uma coisa covarde. Em um minuto, você pode apostar a favor ou contra o Brasil. Ganhei dinheiro apostando contra e chegou um momento em que isso me dava um vazio”, afirma Bonjean. “Hoje, eu aposto a favor do microempreendedor para destravar um potencial adormecido neste país.”

A mudança de rota começa quando, além de se aventurar por rallys, como o lendário Paris-Dakar, ele passou a fazer retiros espirituais na Índia. Foi em um ashram em Bangalore, o Arte de Viver, que se casou. “Os retiros espirituais me ajudaram a conectar minha alma com meu coração.”

O lado espiritual e de olhar para o ser humano está presente numa área da empresa batizada de “Heart Quarter”, em que o coração e não apenas o cérebro dá as cartas, sob o comando da Indiana Rajshree Patel, guru e palestrante motivacional.

O ciclo se fecha quando Bonjean decidiu fazer um curso de liderança na Universidade Harvard entre 2011 e 2013. “Eu me tornei um empreendedor social por meio de experiências que me levaram a conectar pessoas, propósito e performance.” Os três “Ps” estão na base do modelo de negócio da Avante.

Do mercado financeiro, o empreendedor social diz ter enraizado dentro de si a busca por performance. “Foi a única coisa de boa que eu trouxe de lá, que é pensar em números e trabalhar duro.”

Nos 15 anos de atuação em fundos de investimento tradicionais, ele herdou também o apetite para arriscar. Só que agora, corre risco junto com 30 mil brasileiros das classes C, D e E, que são clientes ativos do seu negócio.

“Em um dado momento estava num conflito se dava as costas para o Brasil, mas decidi ficar para resolver um problema com P maiúsculo.” O fator decisivo foi uma tomada de consciência em meio a uma aula em Harvard, quando um o professor lhe endereçou uma pergunta: “O que você gostaria de contar ao seu filho quando ele fizer 15 anos?”.

Com uma década de prazo pela frente para construir um legado a ser mostrado aos herdeiros, Bonjean hoje tem parte da resposta na ponta da língua: “Quero contar para os meus filhos que fiquei no Brasil para apoiar os microempreendedores que movem o setor que considero o mais importante do país”.

Em sua nova encarnação, o propósito maior é, até 2021, impactar 1 milhão deles de Norte a Sul do Brasil. Para isso, usa tecnologia e um sistema desburocratizado de oferecer créditos e soluções de venda para uma clientela desassistida por grandes bancos e instituições de crédito.

VENDEDOR DE BANANAS

Gente como Esiel Almeida, 53, o “bananeiro”, um cliente da Avante que ele conheceu em uma visita a Aldeias Altas (MA), em agosto, e o fez voltar para casa com uma história de um “super herói brasileiro” para contar ao filho.

Bonjean mostrou ao primogênito a foto do maranhense que empurra um carrinho de ferro para vender banana pela região. “Foi em cima desse avião que ele conseguiu comprar um terreno de R$ 100 mil para plantar mais”, narrou ao filho, sobre as aventuras e as desventuras do misto de agricultor e vendedor a quem a Avante emprestou R$ 6.000, crédito renovado duas vezes.

Moral da história: “O segredo do sucesso do seu Esiel foi ficar longe da cachaça, não depender do governo, valorizar a família e os clientes e honrar a palavra”.

Lições repassadas por um cidadão analfabeto, que assina com o dedão as fichas de empréstimo, paga as parcelas em dia e atrasou uma única vez quando precisou socorrer um filho que sofreu um acidente de moto.

“São histórias de sonhadores, das formiguinhas que movimentam o Brasil e sonham junto com a Avante”, resume a mulher do empreendedor social.

Bonjean hoje coloca a cabeça no travesseiro com a certeza de que está ajudando a plantar e a colher sonhos de brasileiros que precisam de microcrédito para vislumbrar um futuro melhor em um rally de longa distância contra a desigualdade e as sucessivas crises


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