O Green Talents Award é, sem dúvida, um dos prêmios de sustentabilidade mais importantes do mundo. Desde 2009, o Ministério da Educação e Pesquisa do governo da Alemanha elege os 25 jovens pesquisadores com trabalhos mais promissores na área. Na edição deste ano, que contou com 800 inscrições de mais de 100 países, a mineira Tatianna Mello da Silva, de 27 anos, foi eleita por um júri de especialistas para o seleto grupo dos “talentos verdes”. Especializada em direito ambiental e políticas públicas, ela acaba de concluir um mestrado na Universidade de Oxford, na Inglaterra. Foi com o planejamento para a tese de doutorado, que pretende iniciar no ano que vem, que Tatianna recebeu o reconhecimento do governo alemão.

“Dizer que fiquei surpresa é pouco, tamanha foi minha estupefação”, disse por e-mail a GALILEU. A pesquisadora encontra-se atualmente em um fórum científico de duas semanas – na prática, trata-se de um intenso tour por renomados centros de pesquisa alemães. No evento é possível marcar entrevistas particulares com grandes nomes da sustentabilidade e acertar futuras parcerias acadêmicas. O prêmio ainda inclui no ano que vem o custeio integral de três meses de pesquisa em qualquer instituto do país. A cerimônia de premiação será em Berlim no dia 7 de novembro, e contará com a participação da ministra de pesquisa e patrona da iniciativa, Johanna Wanka. Confira abaixo a entrevista com Tatianna Mello da Silva:

Sua pesquisa premiada tratou sobre a questão da reciclagem no Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Pode fazer um balanço sobre suas teses e conclusões?

A pesquisa pretende avaliar se a inserção das cooperativas de catadores em sistemas formais de coleta e gerenciamento de lixo contribuiu para a inclusão social e emancipação econômica desses trabalhadores, ao passo em que impactando positivamente as taxas de reciclagem no país. O ponto de partida é a premissa de que para o Brasil avançar em duas áreas prioritárias – erradicação da pobreza e proteção ao meio ambiente – é urgente que repensemos o lixo não mais como resíduo, mas sim como recurso, e que reconheçamos o papel crucial que os catadores de material reciclável têm a desempenhar.

A comissão julgadora considerou que sua pesquisa será útil internacionalmente para diversas economias emergentes. Em quais aspectos acha que seu trabalho tem potencial para pautar políticas públicas?

No plano nacional, minha pesquisa pretende oferecer recomendações sobre como alcançar de forma mais eficiente os objetivos do PNRS. Embora meu foco seja o Brasil, outros países emergentes certamente poderão se beneficiar das conclusões do estudo, considerando que mais de 1% da população mundial depende do lixo como fonte de renda e subsistência. O que muitos países em desenvolvimento ainda não se deram conta é de que o lixo tem uma faceta econômica de extrema relevância. Um estudo publicado pelo IPEA em 2010 estimou que o Brasil perde R$8 bilhões por ano por deixar de reciclar. Com a escassez de matérias-primas, a tendência é de que o valor dos recursos que descartamos seja cada vez maior.

Como você avalia a experiência que está tendo com o tour por renomados centros de pesquisa da Alemanha?

O governo alemão merece aplausos, pois o Green Talents é uma experiência incrível. Estar em contato com 24 pessoas dos mais variados lugares do mundo e com as mais diversas formações, visitando centros de pesquisa de ponta, é simplesmente um privilégio. É uma excelente oportunidade para entender mais sobre tecnologias e assuntos que não estão na sua área de expertise, mas que fazem parte do debate sobre sustentabilidade. Espero expandir meu conhecimento sobre o que faz do sistema de gerenciamento de lixo alemão tão eficiente, e coletar insights dos profissionais sobre possíveis soluções para o nosso.

Os 25 'talentos verdes' de 2014 reunidos (Foto: Divulgação)
Você já escolheu a instituição em que vai querer pesquisar por três meses no ano que vem?

Eu tenho algumas instituições em mente, pretendo focar em um tema quente na Alemanha, como lixo eletrônico e economia circular. Como o tema do lixo é indissociável da questão do desenvolvimento urbano, uma alternativa seria buscar algo no ICLEI, organização internacional formada por prefeitos comprometidos a promover a sustentabilidade global por meio de ações locais. Acredito que alguns projetos ali dentro me permitiriam gravitar entre pesquisa e políticas públicas, que é exatamente onde o meu projeto de doutorado se encontra.

Quais são os planos para quando retornar ao Brasil? Tem em mente o desenvolvimento de algum projeto?

A minha pesquisa doutoral envolverá uma parte considerável de pesquisa de campo com catadores de material reciclável no Brasil. Pretendo coletar dados ainda não levantados sobre o grupo e sobre o papel que ele desempenha na reciclagem no país. Após concluir o doutorado, pretendo prosseguir atuando na interação entre pesquisa e desenvolvimento de políticas públicas. Tenho alguns projetos borbulhando em mente, a maioria voltada para os catadores. Gostaria de trabalhar com cooperativas para tentar fortalecê-las e para ajudar a construir com esses trabalhadores o reconhecimento e a valorização que eles merecem.


Deixe uma resposta